Presidente do BC não vê risco de controle de preços por Bolsonaro

Valor Econômico

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse nesta sexta-feira
acreditar que não há o risco de uma política de controle de preços administrados no
governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista coletiva no Fundo Monetário Internacional
(FMI), porém, Campos não comentou diretamente a decisão de Bolsonaro de cancelar o
reajuste feito pela Petrobras de quase 6% do óleo diesel.
“Eu cheguei quarta-feira [a Washington], não estou acompanhando as notícias, não tem a
menor possibilidade de um dirigente, que é presidente do BC, falar sobre prática de preços
da Petrobras”, disse Campos. “Isso vai ser esclarecido. O presidente já esclareceu, muito
provavelmente outras pessoas do governo falarão sobre isso. Eu prefiro me ater ao tema
do BC.”
Com a insistência dos jornalistas sobre o tema, Campos disse que, “de modo geral, sem
falar nada específico, os economistas liberais acreditam em preços de mercado o mais
livres possível, com a menor intervenção possível”. Acrescentou ainda: “Acreditamos que
isso no longo prazo é o que traz o crescimento sustentável. Faz parte de um grupo de
políticas econômicas que nós acreditamos que sejam as corretas.”
Questionado se tinha medo de que o Brasil no curto
prazo poderia voltar a ter uma política de controle de
preços administrados, Campos respondeu: “Não tenho”,
afirmando não ver esse risco no governo Bolsonaro.
O presidente do BC disse ainda que o importante para a
autoridade monetária “é o líquido de tudo o que
acontece e quanto isso impacta no canal de transmissão
da inflação”, e não uma notícia pontual, como a questão
do cancelamento do reajuste do óleo diesel.
“O importante para o BC é analisar, no somatório de
todos os fatores, como isso se transforma em inflação.
Então não tem cono comentar um fator isolado”, disse ele, destacando que cabe à
instituição avaliar como o conjunto de fatores influencia a inflação de curto prazo e as
expectativas de inflação.
Inflação
Campos afirmou que a melhor forma de o BC contribuir para o crescimento econômico de
longo prazo é mantendo a inflação sob controle. Ao responder se a combinação de
economia fraca e núcleos de inflação baixos não indicava que a política monetária pode
estar restritiva demais, Campos afirmou que o BC não tem meta de crescimento.
“Obviamente o crescimento é importante, mas nós achamos que o melhor modo de crescer
de forma sustentável é com estabilidade de preços prolongada”, disse ele. “Então a parte
de crescimento para o BC é um input, como outros inputs, na tomada de decisão dos
juros.”
Nesta sexta-feira, o Itaú Unibanco reduziu a projeção para o avanço do PIB neste ano de
2% para 1,3%.
Campos também comentou o fato de o IPCA de março ter ficado em 0,75%, acima das
expectativas dos analistas. “A inflação veio alta realmente, mas o mercado logo se
tranquilizou, porque viu que a inflação estava alta por dois componentes: transporte e

alimentação”, disse ele. “Você olha a parte longa da inflação, está bem ancorada. Acho que
o trabalho que foi feito de ancoragem de inflação nos últimos dois anos foi excepcional.”
O presidente do BC disse então que, em encontros com investidores, teve até o
questionamento se, com o crescimento baixo, a inflação pode cair muito mais. “Acho que
vieram choques do passado que vão ser dissipados. O mais importante agora é, primeiro,
que mudamos a percepção [sobre o balanço de riscos para inflação] de assimétrica para
simétrica e achamos que precisamos de tempo aí para acompanhar o cenário.” A
avaliação, com isso, é de que o movimento de março foi pontual.
Campos contou ainda que, em suas conversas com investidores, tem passado a ideia
otimista de que as reformas serão aprovadas, e que o país está no caminho certo. “Falo de
onde estamos agora e para onde estamos indo, do ponto de vista do BC.”
Ele está em Washington para participar da reunião de primavera do Fundo Monetário
Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que ocorre nesta semana. Há também encontros
do G-20 e dos Brics. Ele se encontra com investidores e autoridades.