Ingerência de Bolsonaro custa R$ 32,4 bi à Petrobras e afeta Ibovespa

Valor Econômico

O valor correto da perda é de R$ 32,4 bilhões, e não R$ 34 bilhões. A perda chegou a
alcançar R$ 34 bilhões durante o pregão. Abaixo o texto corrigido:) Decepção e receio.
Essas são as palavras que descrevem a reação do mercado com a cena política local hoje,
sob efeito de duas notícias: a extensão das investigações conduzidas contra o presidente
da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a desistência da Petrobras de reajustar o preço dos
combustíveis após interferência do presidente Jair Bolsonaro. Ao longo do dia, o medo
cresceu: a Petrobras teve o seu pior pregão em quase um ano e o Ibovespa saiu do patamar
de 97 mil pontos no começo da semana para 92 mil pontos hoje.

O receio sobre o futuro da política de preços da Petrobras e sua governança corporativa
contaminou a bolsa como um todo: o Ibovespa caiu 1,98%, aos 92.875 pontos, com
intenso giro de R$ 17,2 bilhões — primeiro giro financeiro de abril acima da média diária
dos pregões de 2019, de R$ 12 bilhões. Só a Petrobras movimentou R$ 6,6 bilhões.
A decisão da estatal de voltar atrás no reajuste dos preços dos combustíveis custou uma
perda de valor de mercado de R$ 32,4 bilhões para a empresa na bolsa de valores — a ON
caiu 8,54% e a PN cedeu 7,75% (considerando o valor no período regular da sessão, sem
contar o after market). Esse foi o preço cobrado pelos investidores com a decepção pela
ingerência de Bolsonaro na companhia, ao recomendar que ela não aplicasse o aumento
de 5,7% no preço do diesel.
Análise: Mercado financeiro tem déjà vu com ingerência de Bolsonaro
O dia já havia começado ruim com a notícia de que a Procuradoria-Geral da República
(PGR) estendeu por 60 dias investigação contra Rodrigo Maia, evento visto como um risco
para a tramitação da reforma da Previdência. A investigação apura suposta propina de R$
1,4 milhão paga pela Odebrecht ao parlamentar e atinge também o pai dele, o ex-prefeito
do Rio e vereador Cesar Maia.
O “efeito Petrobras” também fez o Ibovespa acumular queda de 4,36% na semana. É o pior
desempenho semanal desde o período de cinco pregões findo em 22 de março, quando a
baixa do índice havia superado os 5%.
Ontem, a Petrobras valia R$ 393,9 bilhões na bolsa; agora, ela fecha a semana valendo R$ 361,5 bilhões.
A companhia arrastou consigo também as outras estatais do Ibovespa — Banco do Brasil
(-3,17%), Eletrobras (-4,97% a PNB e -5,24% a ON), Cemig (-3,11%) e Sabesp (-2,88%)
perderam, em conjunto, R$ 40,6 bilhões de valor de mercado só na sessão de hoje.
O receio de gestores, analistas e operadores com o caso é ter uma menor visibilidade sobre
a autonomia na aplicação da política de preços aos combustíveis. A Petrobras argumentou,
ao voltar atrás, que seus mecanismos de proteção, o chamado “hedge”, garantiam “mais
alguns dias” sem o ajuste.
No entanto, Bolsonaro admitiu que ligou para o presidente da estatal, Roberto Castello
Branco, ao saber do reajuste e fez “ponderações” a respeito de não considerar o momento
oportuno para o aumento. Bolsonaro demonstrou preocupações a respeito do transporte

de cargas no Brasil, depois que o reajuste dos preços dos combustíveis provocou, no ano
passado, paralisações dos caminhoneiros pelo Brasil.
A tentativa de Bolsonaro de frear o mesmo impacto visto sobre a economia naquela época
levou a Petrobras a reviver, na bolsa, exatamente aquele período. As quedas dos papéis da
empresa hoje foram as maiores desde a greve dos caminhoneiros, em maio do ano
passado, e a consequente demissão de Pedro Parente do comando da companhia, em
junho daquele ano. Em 1º de junho de 2018, a Petrobras ON caiu 14,92%; a PN recuou
14,86%.
Em entrevista à “CBN”, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, disse que a
ordem de Bolsonaro para suspensão do aumento foi um fato isolado e que tem certeza de
que a atual gestão não repetirá a política de controle vista no governo da ex-presidente
Dilma Rousseff.
Algumas manifestações de gestores de fundos em redes sociais tentam defender a ideia de que o
acontecimento com a Petrobras não é tão grave como se viu na gestão de Michel Temer e na greve dos
caminhoneiros. Não é, no entanto, o que os preços mostram, ao menos em um primeiro momento.
“Não é como se a Petrobras fosse quebrar, mas é o preço de se ter menos governança e dar
a pior sinalização possível ao mercado”, diz um gestor de um fundo com 8% de exposição
em Petrobras PN, que prefere não ser identificado.
No momento, ele não vendeu ações e vai aguardar pelos próximos sinais do governo para
tomar uma decisão. Por ora, o cenário de Ibovespa em 115 mil pontos e a tese de
investimento na Petrobras não foram descartados. “Mas tudo dependerá da continuidade
da reforma da Previdência, que é o principal elemento de dosar a confiança do investidor
agora.”