Quando o poder para de pensar

POR MÍRIAM LEITÃO

A capacidade de pensar das autoridades brasileiras parece estar seriamente comprometida. Diante de fatos dramáticos e dilemas difíceis, o que eles têm dito parece sempre fora do tom. Em alguns casos são inadequações, em outros casos é muito mais grave. No país em que os governantes pensam tão mal, o que será dos governados? Com as mortes, os desastres dos últimos dias, o problema ficou mais visível.

 Governantes se solidarizam com as dores dos cidadãos do país que administram. Vão até ao local do evento quando o acontecimento é mais grave. Pode parecer um gesto inútil, mas muitas vezes a ida ao ponto onde a dor é mais aguda permite à autoridade agir de forma mais rápida, e dá à pessoa atingida o conforto de saber que o poder público está ao seu lado.

O silêncio e as hesitações do presidente Jair Bolsonaro são eloquentes. Ele demorou sete horas para falar sobre o massacre de Suzano, nada disse sobre chuvas que mataram no Rio e, principalmente, fez silêncio por dias sobre o covarde assassinato de Evaldo Rosa. Só na tarde da sexta-feira, cinco dias depois, falou, mas usou a palavra errada para definir o crime. “Um incidente”.

O silêncio do Exército também foi desconcertante. Bolsonaro disse que era preciso concluir a perícia para que o ministro da Defesa se pronuncie. Evidentemente não é preciso esperar perícia alguma para condenar um crime bárbaro, o fuzilamento de um inocente na frente da família. Até para que não paire sobre a tropa a ideia de que ela tem licença para matar. As evidências falam por si. O que o Exército tem que se perguntar é que sinais estão sendo dados aos seus soldados para que tenham esse comportamento. Bolsonaro disse que “o Exército não matou ninguém”. Nove integrantes de suas tropas atiraram 80 tiros sobre um cidadão indefeso e usando as armas que são dadas pelos cidadãos para a defesa da sociedade. O Exército tem muitas qualidades, inúmeros trabalhos meritórios, é uma instituição do país da maior relevância. Mas errou demais neste caso. Não pode cercar de silêncio os seus quadros sem compactuar. Não pode usar palavras brandas para um crime brutal. Não pode deixar de se solidarizar com a família da vítima. Não basta prender os soldados e colocá-los sob o guarda-chuva da sua própria Justiça. É preciso garantir que fatos assim jamais ocorrerão.

Outras autoridades não souberam como se comportar diante do fato. O governador Wilson Witzel e o ministro Sérgio Moro usaram eufemismos ou desculpas para definir o que houve. Depois tentaram consertar elevando um pouco o nível dos adjetivos. Mostram que não sabem separar sua adesão a um projeto de poder do senso de justiça que deveriam ter.

Sobre os desastres causados pelas chuvas na cidade onde o presidente Bolsonaro tem seu primeiro reduto eleitoral, ele não pode ser responsabilizado. Mas podia ter dito que ajudaria a cidade, poderia ter se mostrado presente. Ele veio ao Rio na semana, mas para uma reunião com pastores. Já estava marcada e é natural que ele seguisse a agenda. Difícil é entender a presença do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, num ato que foi sobretudo político, um agradecimento de Bolsonaro aos seus cabos eleitorais.

Na semana das palavras indevidas pronunciadas pelas autoridades, o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva foi muito infeliz quando disse na Câmara que as milícias começaram com “boa intenção”. Jamais se pode aceitar a existência de organização paralela para garantir o que é dever do Estado: dar segurança aos cidadãos. Não existe boa intenção quando forças policiais, ou saídas do setor de segurança, se organizam fora do guarda-chuva institucional para vender proteção aos cidadãos. Só o Estado pode ter o controle do território e por isso deve rejeitar que milicianos declarem como sendo suas algumas partes das cidades.

Certas palavras erradas podem ser só deslizes, como essas do ministro Azevedo e Silva, mas o general deveria repensar o que disse. Outras revelam distorções graves na escala de valores. Algumas omissões podem custar caro ao Brasil. Tem sido difícil conviver com tanta dissonância, com tanta incapacidade de as autoridades entenderem a realidade do país e o papel que devem exercer.

(COM MARCELO LOUREIRO)