Ministros reforçam que a Petrobras decidirá sobre reajuste do diesel

Valor Econômico

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira após reunião com o
presidente Jair Bolsonaro que “não deve haver intervenção política nos preços da
Petrobras”. E disse que, caso o preço do combustível suba demais, a opção seria reduzir
impostos e não alterar a política da estatal.
“Se em algum momento considerarmos que o preço subiu muito, temos que saber que
qualquer medida custa para a União”, disse Guedes. “Se o preço subir demais, poderíamos
reduzir impostos. Nada a ver com intervenção nos custos da Petrobras”.
Guedes falou a jornalistas após reunião com Bolsonaro no Palácio do Planalto. O
presidente barrou um reajuste de 5,74% no preço do diesel na semana passada e pediu
esclarecimentos, o que foi feito hoje.
“Nós saímos da reunião convencidos de que o presidente ouviu os esclarecimentos. Está
claro para nós que não deve haver intervenção política na formação de preços”, disse.
“Porque senão deprecia toda a riqueza que vai sair dos poços de petróleo”, acrescentou.
Guedes criticou o monopólio da Petrobras e a pouca competição no setor, dizendo que
“monopólios não são bons para a sociedade” e “cartéis não são bons para a sociedade”. Ele
afirmou ainda que “vamos ter que dar um choque de energia barata para o país”.
Reajuste
O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, deixou claro que caberá à Petrobras a
decisão sobre o eventual reajuste de 5,74%.
“O eventual reajuste que a Petrobras vai anunciar corresponde a 54% do preços do diesel.
O restante são tributos”, disse. “Qualquer reajuste vai ser em cima dos 54%, não em cima
do todo”, concluiu.
Guedes confirmou que, entre as alternativas em estudo para o aumento do preço do diesel,
está o exemplo norte-americano, onde existe a indexação do frete ao preço do
combustível.
Segundo o ministro, ficou acertado que a Petrobras “tem que trabalhar para melhorar as
suas próprias práticas”. “Nos EUA a solução que encontraram foi indexar o frete ao diesel
e tudo isso tem que ser estudado mesmo, em conjuntura”, afirmou.
Hoje cedo o ministro da Infraestrutura, Tarcisio Freitas, chegou a dizer que além do
cartão-caminhoneiro uma opção era indexar o frete ao preço do diesel. Depois o
ministério esclareceu que essa medida não seria adotada. Guedes, porém, afirmou que o
presidente da Petrobras está estudando as alternativas, incluindo o exemplo norteamericano de indexação.
“Em relação a esse aumento de 5,7% a gente não sabe e a decisão terá que ser tomada
pensando nas futuras regras”, afirmou, ressaltando que na reunião de hoje a Petrobras
não chegou a anunciar quando e quanto fará um aumento.
Interferência
Guedes disse que Bolsonaro “entendeu”, após ouvir esclarecimentos, que “é fora de
propósito” intervir na formação de preços dos combustíveis”Ao final da reunião, o presidente deixou claro que esse é um esclarecimento. E que ele
entende que existem práticas de preços e que é fora de propósito a gente segurar preço,
segurar reajuste, essas coisas”, disse Guedes.
Questionados sobre se o reajuste de 5,74% seria mantido, os ministros responderam que
isso cabe à Petrobras. Eles sinalizaram que a Petrobras manterá sua política de preços.
“Não foi uma decisão de política econômica que ele tomou. Se fosse para mexer, uma
política nova, ele teria se consultado comigo”, disse.
Guedes disse compreender as motivações de Bolsonaro.
“Eu, como economista, tenho que reconhecer que o presidente da República representa
200 milhões de pessoas e que ele pode estar preocupado com uma greve que possa causar
mais desacerto do que uma queda eventual do mercado”, afirmou. “Ele, legitimamente,
com a maior sinceridade, disse: ‘Me explica esse negócio aí, me dê os esclarecimentos
[sobre o aumento acima da inflação]'”.
Segundo Guedes, “a preocupação do presidente estava em outra dimensão, não estava na
econômica”, quando ele segurou o reajuste.
Cem dias
Guedes lembrou que estava fora do país quando Bolsonaro telefonou para o presidente da
Petrobras, Roberto Castello Branco, pedindo que o reajuste do diesel fosse suspenso. E
tentou minimizar rumores de que estaria contrariado, mas confirmou que não foi
consultado. “Eu estava lá fora, na reunião do FMI. E eu disse que preferia chegar e
conversar . Cheguei ontem e tivemos uma reunião.”
Ele disse que no telefonema Bolsonaro pediu explicações para Castello Branco. “Ele disse:
‘me explica isso no dia que eu estou comemorando os cem dias de governo'”, afirmou o
ministro, completando que seria uma forma de o presidente da Petrobras querer “jogar
água no chopp” das comemorações dos cem dias.
O ministro admitiu que a atitude “dá margem de interpretação” de uma interferência
política. “E a interpretação que teve (interferência) é procedente”, disse. “É natural que
presidente pergunte explicações; foi o que disse la fora, eu não tinha informações”,
completou.
Para o ministro da Economia a decisão de Bolsonaro de ligar para o presidente da
Petrobras foi pensando na dimensão política e não econômica. “Ficou clara a preocupação
em relação aos caminhoneiros”, afirmou. Guedes lembrou que Bolsonaro comparou o
aumento de 5,7% que havia sido anunciado para o diesel com a inflação e que foi “natural
a preocupação dele”.
“Foi uma preocupação politica natural, o Brasil há alguns meses parou por conta do
movimento (greve dos caminhoneiros)”, disse, ressaltando que o governo está
monitorando e conversando com os caminhoneiros faz tempo. “Uma coisa é a política de
preços da Petrobras e outra é a preocupação dos caminhoneiros”, afirmou.
Segundo o ministro, os caminhoneiros apresentaram 13 preocupações e reivindicações
para o governo e que a penúltima preocupação era a questão do diesel. “A preocupação
numero um é manutenção e recuperação das rodovias”, disse.

Comments are closed.