Com apreensão política, dólar sobe a R$ 3,90, maior nível do mês

Valor Econômico

As indefinições no caminho da reforma da Previdência reforçaram o clima de cautela no
mercado de câmbio. Em um dia pouco favorável a emergentes no exterior, os investidores
recorreram à proteção do dólar para enfrentar o risco de novos solavancos na cena
política, o que levou a cotação para a marca de R$ 3,90, o maior nível registrado no mês
de abril.
A apreensão dos investidores, inclusive, tem transparecido no ajuste de expectativas para
o potencial de economia fiscal e o tempo de tramitação da principal medida do ajuste de
contas públicas.
Hoje, o dólar comercial subiu do começo ao fim da sessão e fechou em alta de 0,86%, R$
3,9017, num movimento que derrubou o real brasileiro para o segundo pior desempenho
do dia numa lista das principais divisas globais. A desvalorização do câmbio doméstico só
não foi pior que o do peso argentino, que vem de uma economia muito mais frágil que a
brasileira, além de enfrentar um período de incertezas eleitorais.
De acordo com analistas, a retranca no mercado local foi estimulada por novos sinais de
que a tramitação da reforma da Previdência será cheia de percalços. A proposta ainda se
encontra na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, primeiro colegiado a
avaliar o texto, e já sofre com o vaivém das disputas parlamentares, atrasando todo o
processo.
“O ritmo de tramitação da reforma é que o vem determinando o tamanho do prêmio na
nossa moeda. Não à toa, está na marca de R$ 3,90, o topo da banda de negociação das
últimas semanas”, diz o profissional de um banco local. E diante da apreensão que já
prevalece nos negócios, ele destaca que os investidores reagiram com desconforto ao
relato, dado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, de que o ministro da
Economia, Paulo Guedes, estaria irritado com o presidente Jair Bolsonaro. “É o nome
principal da agenda econômica e o mercado fica mais receoso”, acrescenta.
Os ruídos em torno do governo têm alterado a expectativa do mercado sobre as mudanças
previdenciárias. Em pesquisa feita pelo Bank of America Merrill Lynch (BofA) com
gestores de recursos, 59% dos entrevistados disseram que consideram positiva a economia
de, pelo menos, R$ 500 bilhões em dez anos com a aprovação da reforma da Previdência.
Há um mês, apenas 32% dos entrevistados tinham essa visão e a maior parte do mercado
esperava a economia de, pelo menos, R$ 700 bilhões.
Também houve mudança na expectativa de prazo para aprovação. No mês passado, uma
pequena parcela ainda acreditava que a reforma poderia ser aprovada ainda no primeiro
semestre. Agora, ninguém tem essa expectativa. De acordo com a pesquisa do BofA, 71%
dos gestores esperam que as mudanças sejam aprovadas no segundo semestre e 24%
afirmam, inclusive, que pode ficar apenas para o ano que vem.
A equipe do Citi também vem conduzindo pesquisas com clientes, que comprovam o
ajuste de expectativa para a reforma. Mais de 60% dos entrevistados ainda espera que a
reforma será aprovada na Câmara no terceiro trimestre de 2019 com economia fiscal de
R$ 500 bilhões a R$ 750 bilhões. No entanto, foram observadas mudanças graduais em
direção a uma aprovação mais tardia e com potencial menos ambicioso.
No início de março, 15% dos entrevistados pelo Citi afirmavam que a reforma
previdenciária seria aprovada no segundo trimestre e 31% esperavam uma economia fiscal
acima de R$ 750 bilhões. Já na última pesquisa, feita entre os dias 4 e 10 de abril, ambos
os grupos diminuíram para 7% e 8%, respectivamente. Já os grupos mais céticos, que acreditam na aprovação na Câmara só depois do terceiro trimestre e numa economia fiscal
menor que R$ 500 bilhões, aumentaram de 17% para 26% e de 9% para 28%,
respectivamente.