A popularidade não é a régua que mede estadistas

Mario Rosa

A popularidade é um tema muito, como diria, popular nas análises políticas. Definitivamente, a popularidade não é uma questão banal. Ela é uma força que costuma esculpir a história, pois trajetórias de governantes são afetadas por ela e, por tabela, isso afeta a própria história.

Dito isso, a história prova que as testemunhas oculares de momentos grandiosos foram sistematicamente incapazes de enxergarem a grandeza dos vultos que as governa.

Eis porque a popularidade e seu reverso são alucinógenos que servem mais para embaralhar os sentidos do que efetivamente revelar-nos a realidade enquanto a vivemos. Então, temos antes de tudo de desconfiar de nós e de nossos julgamentos, pois a história está cheia de casos de como épocas e gerações são contumazes ineptas de entender o que estavam vivendo.

Dois exemplos absolutamente incontestáveis só para começar, antes de trazer a discussão para os dias de hoje. Getúlio Vargas. Definitivamente, incontestavelmente, insofismavelmente, taí um governante que não era sinônimo de popularidade nos seus últimos dias. E não é opinião minha não.

É história: a única saída para o mais experiente político de toda a República para lidar com a maré de impopularidade de seu tempo e que amalgamava todos os seus contemporâneos foi subir ao segundo andar do Palácio do Catete numa madrugada, vestir um pijama, colocar do lado uma carta previamente escrita (chamada de “testamento”) e apertar o gatilho e espocar um tiro no peito. E o que a história fez? Alguém hoje considera o suicida Vargas o monstro que os seus contemporâneos enxergavam? Nada! É um dos colossos da história, admirado e admirável.

Isso só mostra o quanto os olhares que testemunham a história não a enxergam. O gigantismo de Getúlio não apenas não foi sequer percebido por aqueles que viviam em seu tempo como pior: o viam como a encarnação e o sinônimo de todos os males, a ponto do balaço no coração ter sido sua única saída.

O que dizer de JK, hoje tão endeusado? O presidente do Brasil otimista, da industrialização, da integração nacional e da construção da nova capital? Pois Juscelino Kubitschek era mais odiado do que amado em seu tempo. Sua popularidade nunca foi maior do que a rejeição contra ele. Aquela geração não foi capaz de enxergar o prodígio que era o nhonhô de Diamantina. Somente a história. JK repousa no mesmo panteão sagrado onde ladeia com Getúlio entre os grandes da República. Seus críticos viraram pó.

O fato é que somos mesmo incapazes de olhar o nosso tempo com clareza. E aplaudimos sombras e vilipendiamos titãs. O general Emílio Médici era aplaudido nas arquibancadas do Maracanã lotado, no auge da mais cruenta noite do regime militar. Tudo porque o milagre econômico animava o país.

O general Ernesto Geisel, o presidente que teve a ousadia de começar a desmontar o Estado repressor do regime, demitindo inclusive seu poderoso e linha dura ministro do Exército, sofreu derrotas eleitorais acachapantes, abalroado que foi pelo primeiro choque do petróleo. Geisel será sempre o general que começou a distensão e ajudou a democracia a retomar seu curso na história do país. Médici? Ora Médici…

O presidente mais impopular da história recente, Michel Temer, sem duvida nenhuma será um exemplo dessa miopia histórica que acomete as sociedades. Foi seu governo que começou a restaurar a democracia, depois do golpe perpetrado contra ela pela máquina de desequilibrar os freios e contrapesos, também chamada Dilma Roussef.

Foi Temer que preparou as bases conceituais de muito ou quase tudo que está sendo posto em prática hoje, no governo Bolsonaro, uma espécie de governo Temer 2, sobretudo na economia e na infraestrutura e concepção do Estado. A popularidade de Temer jamais terá sido capaz de medir sua grandeza perante a história. Assim como, é preciso frisar, Luís Inácio Lula da Silva.

Lula hoje é mais impopular do que apreciado. Mas há elementos em sua trajetória, em sua história de vida, que projetam sua lenda pessoal para além da existência. Goste-se ou não de Lula, vote-se ou não nele, é tolice não reconhecer no ex-presidente algumas credenciais que o ombreiam com vultos da envergadura de JK e Getúlio, também igualmente odiados em seus respectivos tempos.

E o Mito? É bom Jair se acostumando com a ideia de que bílis e adrenalina não são as melhores substâncias para elaborar as sinapses mais cristalinas e sensatas. O Mito pode ser um dos grandes presidentes da história do país? Em princípio, por que não? É preciso ainda, diferente de Lula, JK e Getúlio, que construa um legado para ser analisado. Mas todo presidente pode ser grande ou minúsculo. Não são as vaias ou os aplausos momentâneos que medem essa grandeza.

Mario Rosa, 54 anos, é 1 dos mais renomados consultores de crise do Brasil.



Mario Rosa, 54 anos, é 1 dos mais renomados consultores de crise do Brasil.