Haverá Terceira Guerra Mundial?

Hamilton Carvalho

Os últimos dias testemunharam uma grande especulação sobre a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, iniciada a partir do conflito entre Estados Unidos e Irã. Mais de um especialista, entretanto, descartou essa possibilidade.

No momento em que escrevo esta coluna, em resumo, a percepção predominante é que é um exagero falar em guerra de proporções globais.

Mas antes de questionar esse consenso, quero também lembrar ao leitor das especulações, há algumas semanas, a respeito de uma possível contaminação por aqui dos protestos populares que pipocaram na América do Sul. Leonardo Sakamoto, no Uol, por exemplo, afirmou ser chocante a ausência de convulsão social no Brasil, enquanto o Chile ardia em fogo.

Muita gente lembrou das manifestações “que não eram por 20 centavos” e da greve dos caminhoneiros e ficou esperando por uma reedição dos protestos em 2019. Em vão.

O que há em comum nos dois casos –possibilidade de guerra mundial e de protestos violentos no Brasil– é uma confusão entre o que é (largamente) determinístico e o que é basicamente aleatório na eclosão desse tipo de fenômeno.

É fácil enxergar que a maior parte dos fenômenos sociais complexos tem causas majoritariamente determinísticas associadas com algum grau de incerteza ou aleatoriedade. Pense na combinação de causas que elegeu Bolsonaro, por exemplo.

Porém eventos como guerras ou protestos representam um tipo específico e menos evidente dessa equação que combina fatores determinísticos e aleatórios.

Mark Buchanan, físico e escritor científico com passagem pela Nature, autor do excelente Ubiquity: Why catastrophes happen,oferece uma visão de complexidade que, acredito, explica bem o ponto.

Buchanan compara a eclosão de guerras à ocorrência de terremotos ou avalanches. São fenômenos imprevisíveis e sua intensidade (mortes no caso de guerras, energia dissipada no caso de terremotos) obedece a uma distribuição peculiar, conhecida como power law. Nesse tipo de distribuição, quanto maior o dano do evento, mais raro ele é.

No que é mais importante aqui, nessa perspectiva os sistemas envolvidos caminham naturalmente para produzir eventos de diversas intensidades, incluindo os catastróficos, na medida em que vão acumulando instabilidades e tensões.

PÉ ATRÁS

Países podem disputar acesso a recursos e o controle sobre outros países. Tensões, assim, se acumulam entre inimigos geopolíticos, que não raro entram em um ciclo armamentista sem saída.

Tensões também se acumulam em certos segmentos da população, em especial quando percebem um forte sentimento de injustiça, como foi o caso da greve dos caminhoneiros e a política “racional” de reajuste de preços da Petrobras.

Em todos esses casos, há um forte comportamento determinístico e as tensões não apenas se avolumam, mas se interligam em diversas partes do sistema.

Pense na brincadeira de empilhar um grão de areia em cima do outro. Quanto a pilha fica suficientemente grande, o sistema entra naturalmente em estado crítico. O destino do próximo grão de areia pode ser apenas escorrer para baixo, mas, dada a inclinação da pilha e dependendo do local da queda, é grande a probabilidade de uma avalanche, que serve para dissipar (ao menos em parte) a instabilidade acumulada.

O ponto, comprovado por muita pesquisa, é que não dá para prever o tamanho dessas avalanches. Seguindo a distribuição do tipo power law, elas podem ser insignificantes, moderadas ou catastróficas.

Nessa visão, o assassinato do general iraniano Soleimani pelos EUA poderia ser como um grão de areia jogado sobre um sistema com tensões acumuladas. Pode não dar nada muito significativo ou pode dar tudo. Curiosamente, a alternativa de assassina-lo foi apresentada a Trump claramente para ser rejeitada.

Isto é, o grão pode cair em qualquer lugar da pilha, mas em um sistema em estado crítico há seções em que as instabilidades se conectam e que precipitam as maiores avalanches. Um exemplo de “grão de areia” fatal foi o assassinato do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando há um século, que disparou nada menos do que a Primeira Guerra Mundial.

Se esse modo de ver as coisas estiver certo, é de se esperar tanto a inevitabilidade de grandes guerras sangrentas e grandes protestos (ainda que raros) quanto a ocorrência muito mais frequente de pequenos e médios abalos nos sistemas.

De toda a maneira, o melhor conselho é ficar com o pé atrás em relação às previsões comumente feitas por especialistas, que tendem a extrapolar modelos mentais do passado. Nunca se sabe qual o tamanho real da avalanche que nos aguarda.

Hamilton Carvalho, 47 anos, estuda comportamento humano e sistemas sociais complexos. É doutor em Administração pela FEA-USP, mestre em Administração pela mesma instituição, membro da System Dynamics Society e da Behavioral Science & Policy Association.