Crise longa derrubou produtividade

ESTADÃO

A recessão econômica longa e profunda prejudicou mais o setor industrial, que teve queda na produtividade e terá dificuldades de concorrer com seus pares de outros países conforme a economia brasileira for se abrindo, alertou Fabio Bentes, responsável pelo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sobre o fechamento de unidades industriais no País.

“Quando a gente abrir a economia, e é isso que se espera de um governo liberal, a tendência é que a gente não tenha recuperação no número de empresas. Porque abrir a economia vai exigir um grau de esforço de produtividade das indústrias daqui e seguramente muitas delas não estão preparadas”, previu Bentes.

Para André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, a recuperação industrial brasileira tem sido prejudicada por diferentes fatores. Alguns são estruturais, como carga tributária elevada. Outros são conjunturais, como a crise na Argentina, os mais de 12 milhões de desempregados e o ambiente de incertezas elevadas desde 2018, que afeta decisões de consumo e de investimentos.

“Tem uma série de fatores influenciando e o setor industrial não consegue de forma alguma deslanchar”, avaliou Macedo. “Tem algum tipo de recuperação, mas sem fôlego para eliminar as perdas do passado.”

O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria brasileira, que mostra quanto do parque industrial está sendo usado, desceu a 75,1% na passagem de novembro para dezembro. Os dados são da Sondagem da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV). A última vez que o Nuci esteve acima de 80% foi em 2014. Desde 2015 o nível de utilização da capacidade instalada gira em torno de 70%.

“Isso significa que a capacidade ociosa (parte dos equipamentos fabris que não é utilizada) da indústria está bastante elevada”, ponderou a economista Renata Santos de Mello Franco, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). Significa que o uso da capacidade produtiva está bem abaixo da média histórica, que fica em torno de 79,9% a 80%. 

O levantamento da CNC sobre o fechamento de unidades industriais foi feito com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), hoje sob responsabilidade do Ministério da Economia. Também foram usadas informações das Contas Nacionais do IBGE.

Três perguntas para:

Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) lamenta que 2019 tenha sido recessivo para a indústria, mas acredita que o setor retome sua trajetória de recuperação neste ano, com taxas de crescimento ainda baixas, porém mais frequentes e consistentes. No entanto, o cenário econômico inspira cautela, o que deve inibir a inauguração de novas indústrias, avalia o economista-chefe do Iedi.

1. Quais as perspectivas para a indústria em 2020?

Veio esse balde de água fria em novembro (queda de 1,2% na produção em relação a outubro), mas em 2020 o crescimento deve ser mais consistente. Sem muito vigor, será um ano de baixo crescimento. A construção civil deve ajudar, tem dado sinais de melhora, é um setor que consome muitos insumos. É esperado crescimento do consumo, ajudado pelo crédito. Os estoques industriais parecem relativamente ajustados, o que é bom, e o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) lentamente vem se aproximando da média anterior à crise. Ainda está abaixo, mas está melhorando.

2. O Iedi ressalta que um dado positivo recente foi o crescimento da produção de bens de capital para a própria indústria, que avançou 5,9% em novembro ante outubro. Isso significa retomada dos investimentos industriais?

Isso sinaliza que alguns planos de investimento estão sendo desengavetados. Não é aumento da capacidade ainda, mas tem a preocupação de modernização do processo produtivo. Por ora é só modernização. Pode ter alguma ampliação de capacidade produtiva, mas pontual. É mais para assegurar produtividade, porque produtividade é competitividade.

3. É possível esperar a abertura de novas unidades produtivas nos próximos anos?

Você tem de ter confiança de que a economia está em franca expansão para ter esse tipo de projeto. O cenário para o empresário industrial ainda é de cautela.