Siderurgia europeia corta produção e prevê prejuízo

Valor Econômico

As siderúrgicas europeias, que já passavam por um péssimo momento no mercado, reduziram a atividade e interromperam linhas de produção para preparar-se contra as consequências do novo coronavírus. Empresas como ThyssenKrupp e Tata Steel decidiram agir em razão da queda nas encomendas, da falta de pessoal disponível ou por precaução de segurança contra infecções, enquanto a rival Liberty House fechou alguma de suas usinas menores temporariamente.

A ArcelorMittal, maior produtora de aço do mundo, reduziu a produção na maior parte de suas fábricas na Europa e previu que a pandemia provavelmente colocará as siderúrgicas europeias “sob intensa pressão”.

Um motivo importante é o fechamento temporário de todas as instalações das montadoras europeias de veículos, sinal de como o impacto da covid-19 está reverberando pelas cadeias de fornecimento industrial.

“Este vai ser um ano de prejuízos para a indústria siderúrgica europeia”, disse James Campbell, da firma de consultoria especializada em commodities CRU. “[A indústria] havia acabado de passar por um ano ruim e 2020 será muito pior”, disse.

O quadro levou analistas do banco de investimento Jefferies, por exemplo, a reduzir sua previsão de lucro para o setor em 20%.

Para uma indústria básica como a siderúrgica, considerada pedra angular de qualquer economia industrial moderna, o temor é que o período de pouca atividade acabe se prolongando e deixando impactos duradouros.

Embora usinas siderúrgicas da Espanha, Itália, Alemanha, Holanda e Polônia e de boa parte do resto do mundo tenham sido afetadas, alguns especialistas acham que o Reino Unido poderia estar particularmente vulnerável, porque sua indústria de aço tem altos custos de produção e um legado de investimentos insuficientes.

“A indústria siderúrgica do Reino Unido é o elo mais fraco na Europa, mesmo que esteja menos exposta ao [setor] automotivo”, afirmou um assessor.

O setor siderúrgico europeu nunca se recuperou plenamente da crise financeira de 2008 e 2009, que resultou no fechamento de usinas e em demissões em massa.

Desde então, as siderúrgicas europeias têm enfrentado problemas com o aumento nos níveis de importação, o que é agravado pelo esquema de créditos de carbono da União Europeia, que tributa fábricas poluidoras.

O bloco econômico foi pego no meio de uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, cujo resultado foi um aumento nas remessas de aço para a Europa em um momento no qual os preços e a demanda já estavam baixos. A associação setorial Eurofer argumenta que as medidas de proteção de Bruxelas na área de comércio exterior são inadequadas.

Certos nichos do mercado da siderurgia vêm se beneficiando porque os consumidores passaram a comprar mais produtos enlatados e pilhas para aparelhos eletrônicos em reação ao confinamento em suas casas, mas não se tratam de segmentos muito significativos.

As montadoras representam aproximadamente 20% do consumo de aço na Europa. Também se prevê uma forte desaceleração no setor de construção, outro grande usuário de aço.

Um mês de interrupção no setor automotivo, em estimativa conservadora, resultaria em queda de pelo menos 2% na demanda anual da região pelo metal, segundo Alex Griffiths, da firma de consultoria Wood Mackenzie. “Não estávamos mesmo esperando crescimento nenhum e isso daqui vai estragar de vez este ano”, acrescentou.

Embora nenhum grande corte de emprego tenha sido anunciado até agora como resultado do vírus, a incerteza da profundidade e da duração do declínio vai pairar sobre as forças de trabalho, que já vêm sofrendo há anos com demissões.

A crise do coronavírus abalou o humor na British Steel, que já havia sido salva da quebra pelo conglomerado chinês Jinge Group neste mês. “Todos estavam animados com o futuro, e agora acontece isso”, disse Paul McBean, representante sindical na principal usina da empresa, em Scunthorpe. “A grande preocupação é quanto tempo isso vai durar.”