Setor industrial e a crise

Editorial A Tribuna

Assim como as demais empresas do País, a Usiminas enfrenta dificuldades devido à pandemia do novo coronavírus. No caso da siderúrgica, conforme explica sua direção, o problema está na paralisação da produção da indústria automobilística, que mesmo antes da atual crise já andava desacelerada, inclusive com a desativação da unidade da Ford no ABC. Entretanto, o momento acentua não só a pressão sobre a usina, que pode demitir, segunod sindicalistas, até 60% do seu efetivo na região, como de todo o parque fabril de Cubatão e do Brasil. Trata-se da baixa competitividade da cadeia industrial brasileira, um problema estrutural que ainda não foi enfrentado de frente.

É verdade que a alta do dólar deixa as exportações do País mais baratas e encarece as importações, situação que já pode ser notada na balança comercial. No último levantamento do Ministério da Economia, do dia 11 ao 17, as vendas externas superaram as compras em US$ 1,29 bilhão. Provavelmente devido à pandemia, os industrializados exportados caíram 7,6%, mas os importados desse setor recuaram mais ainda, 8,5%. 

Infelizmente a vantagem cambial tende a perder agora força se a recessão mundial se consumar nas suas piores expectativas e houver excesso de oferta de mercadorias no globo. A guerra de preços vai acabar ocorrendo. Assim, será difícil competir com empresas chinesas e alemãs, conhecidas respectivamente pelo baixo custo e eficiência.

O problema da baixa competitividade brasileira não é uma novidade. Começa pela qualidade ruim da educação de base dos jovens que chegam ao mercado de trabalho e avança por uma intrincada carga tributária, elevada e com uma série de impostos em cascata, além de uma infinidade de normas fiscais e administrativas cotidianamente divulgadas pela União, estados e municípios. Sistema de transporte ineficiente e crédito caro e insuficiente para as pequenas e médias empresas completam a gama de entraves ao desenvolvimento da iniciativa privada. Já a reforma trabalhista corrigiu distorções e adequou o sistema às transformações dos últimos anos, como o teletrabalho e a prestação de serviço de forma autônoma cada vez mais intensa. 

Deve-se considerar ainda que a economia do País é das mais fechadas entre as relevantes do mundo. Reabri-la, como bem lembrou o ministro da Economia, Paulo Guedes, é uma necessidade, mas há risco à sobrevivência da indústria se todo esse processo for abrupto. Por isso, as reformas, no momento paralisadas e sem condições de serem discutidas no Congresso devido à prioridade, que é a pandemia, terão que voltar à pauta do Parlamento no médio prazo. As mudanças ameaçam interesses e partes da sociedade há muito tempo bem acomodadas – isso tem que ser combatido. Resolvido o campo das normas, da burocracia e da infraestrutra, as empresas poderão ficar focadas no que devem apenas fazer, que é desenvolver produtos e soluções, gerando empregos.