Com aviões Embraer, Azul planeja expansão

O presidente da Azul Linhas Aéreas, John Rodgerson, disse ontem que a companhia pretende chegar a 200 destinos nacionais nos próximos três a quatro anos. Ele apresentou os planos de expansão da empresa ao secretário executivo do Ministério da Economia, Marcelo Guaranys, que já foi diretor-geral da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

“Mostramos o nosso crescimento no Brasil e falamos sobre como trabalhar junto com o governo para ajudar o País a crescer e contratar mais pessoas”, disse Rodgerson após a reunião.

O executivo da Azul destacou o início das operações da companhia na ligação direta entre o Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), e Nova York (EUA), além da compra da TwoFlex, que irá adicionar 36 novos destinos nacionais na malha da empresa. “Faremos a única rota para Nova York fora de Guarulhos (SP). A Azul está crescendo onde as outras empresas não estão atuando. Com a compra da TwoFlex, estamos operando de Mossoró (RN) a Nova York”, ressaltou. “Já estamos em 150 destinos e queremos chegar a 200 nos próximos três a quatro anos”, complementou.

O presidente da Azul disse que conversou com Marcelo Guaranys sobre formas de operacionalizar de maneira mais rápida os processos de compra de aeronaves da Embraer. A exemplo do que ocorre com plataformas de petróleo, esses processos exigem movimentos de exportação e posterior importação da mesma aeronave. “O importante é conseguirmos voar logo”, declarou.

NOVAS AERONAVES

Ainda ontem, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, John Rodgerson anunciou a compra de 75 aviões da Embraer. “Estou aqui para anunciar para você que aumentamos para 75 (aviões comprados da Embraer)”, disse. Questionado se a Azul irá receber mais aviões, o CEO da companhia aérea respondeu que serão mais 27 este ano. Rodgerson disse, ainda, que a empresa “acredita muito” em Bolsonaro.

O investimento da Azul em ampliar sua área de atuação reforça as estimativas da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) de que o segmento da aviação comercial crescerá entre 3% e 4% em 2020.

HUB NO RECIFE

Recife é hub da Azul desde março de 2016 e já conta com voos diretos para 30 destinos nacionais e quatro internacionais, partindo da capital pernambucana. Questionada como essas mudanças alterariam a malha área em Pernambuco, a Azul respondeu em nota que “nos próximos anos, a empresa esperar iniciar suas operações em uma média de 5 a 8 novos destinos”.

A empresa disse ainda que foi divulgada uma lista de cidades com potencial econômico e que, após investimentos em infraestrutura, a companhia pretende servir. “Em Pernambuco e dentro dessa lista, temos Caruaru e Serra Talhada”, complementa o texto.

Indústria naval parou e demitiu 27 mil trabalhadores

TERRA

Quando fechou e pediu recuperação judicial no fim de 2015, o Estaleiro Ilha S.A. (Eisa) demitiu 3 mil funcionários. Rogério de Carvalho da Silva Sobrinho, hoje com 39 anos, trabalhava lá desde 2008. Foi demitido com a maioria dos colegas, em dezembro daquele ano. Em uma sexta-feira, já de manhã, a “rádio peão” anunciava o corte de pessoal. Na segunda-feira seguinte, alarmados, “os funcionários do dia pararam de trabalhar e foram tomar satisfação com as chefias”, contou Carvalho.

A “satisfação” foi prestada com a confirmação das demissões. Naquela mesma segunda-feira, centenas de funcionários seguiram em manifestação até a via de acesso do aeroporto do Galeão, como documentou o Estado. O estaleiro, ou o que restou dele, fica na Ilha do Governador, mesmo bairro da zona norte do Rio onde está o terminal aéreo. Muitos trabalhadores ficaram sem receber seus direitos. Carvalho cobra R$ 95 mil do Eisa na Justiça trabalhista.

“No estaleiro fiz muitos amigos. Ali praticamente comecei minha vida adulta profissional. Aprendi muita coisa, aprendi ética profissional”, disse.

Em 2014, o Eisa começou a ter problemas financeiros. Houve atrasos nos salários, mas um empréstimo de US$ 120 milhões, em agosto daquele ano, garantiu alguma sobrevida. Com idas e vindas, a agonia prosseguiu por 2015, quando a economia já afundava na recessão. Foi quando o estaleiro entrou para a estatística de indústrias fechadas no Brasil.

O caso da indústria naval fluminense chama atenção para o recuo industrial brasileiro e suas consequências. No fim de 2014, o setor empregava 30 mil trabalhadores no Estado. Atualmente, são cerca de 3 mil.

Os 27 mil empregos perdidos se foram com estaleiros fechados ou quase parados, segundo Sergio Bacci, vice-presidente do Sinaval, entidade que representa a indústria naval. As unidades em funcionamento estão sem obras, dedicadas ao estacionamento de embarcações ou cuidam de pequenos reparos e manutenção.

Onda

Em crises como a que atinge a indústria brasileira há muitas versões para o fechamento de fábricas. Há companhias que, sem condições de manter uma ou todas as suas plantas quase paradas, optam por fechá-las de vez. Há os casos de falência definitiva, com capacidade produtiva e empregos destruídos. Também fala-se em revisões de estratégia.

As histórias se espalharam pelo País nos últimos anos. Entre 2016 e 2019, a fabricante de roupas catarinense Malwee fechou duas fábricas. A maior delas em Blumenau (SC). A empresa demitiu cerca de 300 funcionários no fim de 2016. Em maio do ano passado, desativou a unidade de Pomerode (SC). Nesse caso, funcionários e atividades foram transferidos para a principal planta, em Jaraguá do Sul (SC). Ela receberá R$ 100 milhões em investimentos.

“A unificação deve trazer ganhos de agilidade, eficiência operacional, sinergia e facilidade nas tomadas de decisão”, informou a Malwee, em nota.

No ano passado foi simbólico o fechamento da fábrica da Ford no ABC paulista. Construída pela Willys em 1952, a fábrica passara à Ford em 1967. Quando a Ford anunciou o encerramento das atividades, em fevereiro de 2019, eram 2,8 mil funcionários. Parte aceitou um pacote de demissão voluntária (PDV). Restavam 650 empregados na linha de produção no momento da desativação, em outubro. Esses trabalhadores foram desligados em novembro. Um grupo da área administrativa foi transferido para um novo escritório em São Paulo.

No Rio Grande do Sul, a fabricante de pneus Pirelli anunciou em maio o fechamento da unidade de Gravataí, dispensando 900 funcionários. “A produção dos pneus de moto da Pirelli, hoje realizada em Gravataí (RS), será transferida para Campinas (SP) até a metade de 2021”, diz nota enviada pela empresa. Em maio, a empresa anunciou que Campinas receberia investimento de ¤ 120 milhões com o objetivo de “melhorar a competitividade das fábricas no País”.

A Duratex, que fabrica de laminados de madeira (marca Durafloor) a louças e acabamentos para banheiro e cozinha (marca Deca), fechou uma fábrica em São Leopoldo (RS) em julho de 2019 e outra em Botucatu (SP) em setembro. No primeiro caso, o fechamento da fábrica da Deca foi “importante para a consolidação industrial e para manter a competitividade no segmento”, segundo a empresa.

Terra Investimentos zera posição em CSN

Investing

A Terra Investimentos informou nesta quarta-feira que decidiu pelo encerramento da posição com as ações da CSN (SA:CSNA3), passando a incluir na carteira recomendada da semana os papéis da BRF (SA:BRFS3).

De acordo com a corretora, a decisão se deu após a valorização de 11,30% desde sua inclusão no começo do mês passado, com preço de entrada de R$ 13,73. O ativo fechou a sessão de ontem a R$ 14,83, depois de ter atingido a máxima de R$ 15,36, muito próximo do alvo de R$ 15,40.

A Carteira Semanal TOP5 Terra fechou 2019 com valorização de +62%, enquanto o Ibovespa tem alta de +31,58%.

Composição: Bradesco (SA:BBDC4) (alvo em R$ 40,50), Ambev (SA:ABEV3) (alvo em R$ 20,20), Petrobras (SA:PETR4) (alvo em R$ 32,65), CVC (SA:CVCB3) (alvo em R$ 49,30) e BRF (SA:BRFS3) (alvo em R$ 38,80).

Ação da Gerdau não é mais “pechincha”, mas você precisa tê-la em 2020

Money Times

As ações da Gerdau (GGBR4) decolaram 62% nos últimos três meses, estão caras, mas ainda valem a pena, aponta o Credit Suisse em um relatório enviado a clientes nesta quarta-feira (15).

“Não é o momento de realizar lucros, pois acreditamos que estamos apenas no início de um forte ciclo de atividades de construção no Brasil”, explicam os analistas Caio Ribeiro e Gabriel Galvão.

Eles revisaram para cima as projeções para os papéis da siderúrgica para incorporar a elevação no preço do aço longo no Brasil – de 8% a 12% – e a nova projeção para o dólar, que foi de R$ 4,06 a R$ 4,21.

Desta forma, o preço-alvo avançou de R$ 21 para R$ 26. A recomendação de compra é a principal para o Brasil, indica o banco.

“Embora as ações não sejam mais uma ‘pechincha’, pois as negociam a 7 vezes o valor da empresa sobre o Ebitda estimado para 2020 (versus um histórico de 6 a 6,5 vezes), vemos múltiplos em declínio à frente, à medida que projetamos um crescimento significativo dos ganhos alimentado por aumentos de preços, recuperando vendas e benefícios de diluição de custos”, concluem.

Australiana Fortescue vê avanço modesto na produção de aço da China em 2020

Reuters

A produção de aço da China deve ter um crescimento modesto neste ano, guiado pela crescente urbanização e por projetos da iniciativa “Cinturão e Rota”, disse a presidente do grupo australiano Fortescue Metals nesta quarta-feira.

Gaines, que lidera a quarta maior produtora de minério de ferro do mundo, afirmou estimar que a China tenha produzido cerca de um bilhão de toneladas de aço em 2019.

A China produziu 904,18 milhões de toneladas de aço nos 11 primeiros meses do ano passado, segundo dados oficiais. Os números de dezembro serão divulgados ainda neste mês.

“Nós ainda precisamos ver os números oficiais para o ano inteiro de 2019, mas eu esperaria um crescimento mais modesto em 2020”, disse ela.

“A atual tendência de urbanização segue muito intensiva em aço. Estamos vendo mais investimentos em trens de alta velocidade, mais aeroportos sendo construídos, investimentos significativos que demandam aço”, afirmou ela em evento em Xangai, onde a companhia abriu um novo escritório.

A Fortescue, que produz cerca de 170 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, para venda principalmente na China, estabeleceu uma unidade de comercialização no país em abril do ano passado, em um esforço para focar em operações de menor porte denominadas em iuanes.

“No futuro, esperamos ver cerca de 5% das vendas da FMG China sendo realizadas por esse canal”, afirmou ela.

Recessão fez Brasil perder 17 fábricas por dia entre 2015 e 2018, diz estudo

TERRA

Em meio a dificuldades de manter o ritmo de recuperação da produção, a indústria de transformação encolheu significativamente no País nos últimos anos. Pelo menos 17 indústrias fecharam as portas por dia no Brasil ao longo de quatro anos. Ao todo, 25.376 unidades industriais encerraram suas atividades de 2015 a 2018. Os números são de levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) com exclusividade para o Estadão/Broadcast.

A extinção de unidades industriais é resultado do acúmulo de perdas na produção da indústria de transformação brasileira entre 2014 e 2016. Houve um início de recuperação em 2017, mas o processo perdeu fôlego em 2018. De janeiro a novembro de 2019, últimos dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE, a produção da indústria de transformação ficou praticamente estagnada. Com dificuldades para repor as perdas passadas, a indústria de transformação opera 18,4% abaixo do pico alcançado em março de 2011.

“A transformação está praticamente parada. Se ela não cai, também não demonstra nenhum tipo de crescimento”, ressaltou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

Se a produção industrial cresce, cada aumento de 1 ponto porcentual gera abertura de, aproximadamente, 5,9 mil unidades produtivas no ano seguinte. Se cai, o número de fábricas em atividade diminui na mesma proporção, calculou Fabio Bentes, economista da Divisão Econômica da CNC e responsável pelo estudo.

“O fechamento de unidades produtivas vai se intensificando e atinge um ápice também mais ou menos depois de um ano”, explicou Bentes.

O estudo da CNC mostra que o País tinha 384.721 unidades industriais de transformação em 2014. Desceu a 359.345 indústrias em 2018, queda de 6,6% no total de unidades. O Rio de Janeiro teve a maior queda no período (-12,7%). Perdeu 2.535 unidades em quatro anos. Em termos absolutos, o Estado de São Paulo teve a maior perda de unidades produtoras. Foram menos 7.312 unidades, o equivalente a uma redução de 7%.

A expectativa para a produção industrial nos próximos meses é favorável. O processo de abertura da economia e a elevada capacidade ociosa do parque fabril, porém, podem adiar a inauguração de novas unidades industriais. Haverá dificuldade para a retomada mesmo em cenário de crescimento da fabricação de manufaturados.

“A economia está começando a se recuperar, há expectativa de crescimento em torno de 2% na indústria (em 2020). Mas será que vai gerar cerca de 12 mil unidades produtivas em 2021? Acho pouco provável que isso ocorra”, opinou Bentes.

Governo atualiza 12 normas de segurança e saúde e revoga uma

Valor Econômico

O governo revisou 12 e revogou uma das 35 normas regulamentadoras (NRs) que devem ser cumpridas pelas empresas para garantir a segurança e saúde dos trabalhadores. Dessas alterações, duas serão publicadas em fevereiro. A expectativa da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, ligada ao Ministério da Economia, é finalizar todas as atualizações até o fim deste ano.

Segundo nota técnica do Ministério da Economia, estima-se que as mudanças efetuadas possam representar uma redução de R$ 47,2 bilhões no custo anual das empresas no cumprimento dessas exigências. Além de uma economia em torno de R$ 58,4 bilhões com a não execução de exigências que foram canceladas.

Uma das principais mudanças, segundo especialistas, decorre da revisão da NR 12, que trata da compra e uso de máquinas pelas indústrias. Os 1080 itens do texto original, que deveriam ser observados, caíram para 713. Com 34% de determinações a menos, o Ministério da Economia estima uma economia de R$ 43 bilhões para as empresas. Este impacto seria distribuído ao longo dos anos, de acordo com a duração média dos equipamentos.

Segundo o auditor-fiscal e assessor da Secretaria de Trabalho, Fernando Gallego, a ideia foi harmonizar a NR 12 para que seja compatível com as orientações europeias (Normas tipo C). De acordo com ele, mesmo as máquinas europeias e americanas, que cumpriam todos os requisitos de segurança no exterior, sofriam obstáculos para serem usadas no Brasil. Com as mudanças, ele avalia que os custos de adaptação das fábricas nacionais às exigências devem cair.

O advogado Fabio Medeiros, do Lobo De Rizzo Advogados, acrescenta que a NR deixa claro que as máquinas antigas, adquiridas antes da NR 12, até dezembro de 2010, não precisam ser substituídas porque cumprem as exigências vigentes da época.

Nesse caso, apesar da simplificação promovida, o engenheiro de segurança do Trabalho e diretor na Vendrame Consultoria em Segurança, Saúde e Meio Ambiente, Antonio Carlos Vendrame, afirma que as previsões ainda trazem dificuldades às empresas. “Mas como muitas disposições da legislação brasileira, ainda se exige em um nível tão alto que as empresas não conseguem cumpri-las. É um padrão japonês que não está de acordo com a nossa realidade”, diz.

O governo também diminuiu o número de exigências referentes a condições de higiene e conforto nos locais de trabalho (NR-24). Foi alterada a base de cálculo para dimensionamento de instalações como vestiários e banheiros. Antes era fixada pelo número de funcionários, agora por empregados que atuam no turno de maior contingente. A norma ainda previa um banheiro por gênero. Pelas alterações, estabelecimentos que possuem até dez empregados podem ter um banheiro unissex.

As penalidades para quem descumprir as normas de segurança e saúde também foram revistas. A NR 28 reduziu de 6.863 possibilidades de multas administrativas para 4.096. Segundo o auditor-fiscal Fernando Gallego, houve uma aglutinação por temática e gravidade para a redução de itens previstos na norma.

Para Gallego, a redução corresponde à organização e reunião das infrações de mesmo nível, como leves com leves. “Até mesmo para que a fiscalização possa focar nos itens mais importantes, que desencadeiam a maioria dos acidentes de trabalho”, diz. De acordo com ele, “nenhuma dessas alterações coloca em risco a saúde do trabalhador”, diz.

Já os embargos e interdições de obras passam a ter critérios objetivos para orientar os auditores-fiscais, segundo a NR 3. Uma média de 4,1 mil empresas são embargadas ou interditadas por ano, segundo dados da Secretaria do Trabalho. “Isso deve trazer mais segurança jurídica. O empregador vai saber exatamente porque houve o embargo ou a interdição, estabelecidos por critérios objetivos”, afirma Gallego.

Outra grande mudança já aprovada será publicada em fevereiro e refere-se à NR 9. Um novo Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) foi criado e passará a se chamar Programa-Geral de Riscos (PGR). O texto em vigor fala em riscos químicos, físicos e biológicos e é basicamente voltado para as indústrias. Já o PGR incluirá outros riscos, como os ergonômicos. O programa de gestão de riscos médicos, previsto na NR 7 também passou por várias reformulações e deve ser publicado também em fevereiro.

Ainda ficou determinado na NR-1 que as empresas não precisam treinar funcionários que já passaram pelas aulas anteriormente, como exigido até então.

A norma ainda estabelece um tratamento diferenciado para micro e pequenas empresas com risco baixo ou muito baixo de acidentes. Elas ficaram liberadas de elaborar um PRG e do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional. A expectativa do Ministério da Economia é que a medida represente uma redução de R$ 1,5 bilhão para empresas prestadoras de serviço e comércio e R$ 25 milhões para as indústrias. De acordo com a advogada Marina Aranha, do Lobo De Rizzo Advogados, esta é uma boa notícia para as empresas de menor porte, que tinham gastos altos com o cumprimento desses programas, mesmo com baixos riscos de acidente.

Normas específicas para a construção (NR 18), para serviços executados sob calor artificial ou a céu aberto (NR 15), para os setores que tratam de produtos inflamáveis (NR 20) e mineração (NR 22) também foram alteradas. A única norma revogada até agora, a NR 2, relativa a inspeção prévia de instalações, foi cancelada porque já não acontecia na prática, segundo o governo.

No saldo geral, de acordo com o advogado Fabio Medeiros, em uma primeira análise, o que se buscou foi realmente uma atualização desses atos, ou mesmo uma limpeza em relação ao que realmente vem sendo praticado e o que era impossível de ser realizado. Para ele, as alterações são iniciais já que o governo federal promete muitas outras alterações.

O engenheiro de segurança do trabalho, Antonio Carlos Vendrame, acredita que poderiam ser promovidas maiores mudanças. Para ele, as empresas deveriam participar mais ativamente do processo de revisão com o governo. “Essas normas são feitas a três mãos, com representantes de empresas, trabalhadores e governos, mas deveria existir uma atuação maior das companhias”, avalia. Para ele, a NR 12, por exemplo, quando editada em 2010, pegou o empresariado de surpresa.

Crise longa derrubou produtividade

ESTADÃO

A recessão econômica longa e profunda prejudicou mais o setor industrial, que teve queda na produtividade e terá dificuldades de concorrer com seus pares de outros países conforme a economia brasileira for se abrindo, alertou Fabio Bentes, responsável pelo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sobre o fechamento de unidades industriais no País.

“Quando a gente abrir a economia, e é isso que se espera de um governo liberal, a tendência é que a gente não tenha recuperação no número de empresas. Porque abrir a economia vai exigir um grau de esforço de produtividade das indústrias daqui e seguramente muitas delas não estão preparadas”, previu Bentes.

Para André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, a recuperação industrial brasileira tem sido prejudicada por diferentes fatores. Alguns são estruturais, como carga tributária elevada. Outros são conjunturais, como a crise na Argentina, os mais de 12 milhões de desempregados e o ambiente de incertezas elevadas desde 2018, que afeta decisões de consumo e de investimentos.

“Tem uma série de fatores influenciando e o setor industrial não consegue de forma alguma deslanchar”, avaliou Macedo. “Tem algum tipo de recuperação, mas sem fôlego para eliminar as perdas do passado.”

O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria brasileira, que mostra quanto do parque industrial está sendo usado, desceu a 75,1% na passagem de novembro para dezembro. Os dados são da Sondagem da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV). A última vez que o Nuci esteve acima de 80% foi em 2014. Desde 2015 o nível de utilização da capacidade instalada gira em torno de 70%.

“Isso significa que a capacidade ociosa (parte dos equipamentos fabris que não é utilizada) da indústria está bastante elevada”, ponderou a economista Renata Santos de Mello Franco, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). Significa que o uso da capacidade produtiva está bem abaixo da média histórica, que fica em torno de 79,9% a 80%. 

O levantamento da CNC sobre o fechamento de unidades industriais foi feito com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), hoje sob responsabilidade do Ministério da Economia. Também foram usadas informações das Contas Nacionais do IBGE.

Três perguntas para:

Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) lamenta que 2019 tenha sido recessivo para a indústria, mas acredita que o setor retome sua trajetória de recuperação neste ano, com taxas de crescimento ainda baixas, porém mais frequentes e consistentes. No entanto, o cenário econômico inspira cautela, o que deve inibir a inauguração de novas indústrias, avalia o economista-chefe do Iedi.

1. Quais as perspectivas para a indústria em 2020?

Veio esse balde de água fria em novembro (queda de 1,2% na produção em relação a outubro), mas em 2020 o crescimento deve ser mais consistente. Sem muito vigor, será um ano de baixo crescimento. A construção civil deve ajudar, tem dado sinais de melhora, é um setor que consome muitos insumos. É esperado crescimento do consumo, ajudado pelo crédito. Os estoques industriais parecem relativamente ajustados, o que é bom, e o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) lentamente vem se aproximando da média anterior à crise. Ainda está abaixo, mas está melhorando.

2. O Iedi ressalta que um dado positivo recente foi o crescimento da produção de bens de capital para a própria indústria, que avançou 5,9% em novembro ante outubro. Isso significa retomada dos investimentos industriais?

Isso sinaliza que alguns planos de investimento estão sendo desengavetados. Não é aumento da capacidade ainda, mas tem a preocupação de modernização do processo produtivo. Por ora é só modernização. Pode ter alguma ampliação de capacidade produtiva, mas pontual. É mais para assegurar produtividade, porque produtividade é competitividade.

3. É possível esperar a abertura de novas unidades produtivas nos próximos anos?

Você tem de ter confiança de que a economia está em franca expansão para ter esse tipo de projeto. O cenário para o empresário industrial ainda é de cautela.

Nós falhamos, reconhece Cristovam Buarque

Cristovam Buarque

Durante 26 anos, a República brasileira teve 5 presidentes de um mesmo bloco político. Apesar de partidos, ideologias e comportamentos diferentes, Itamar, Cardoso, Lula, Dilma e Temer vêm do mesmo grupo que lutou contra a ditadura e defendeu posições progressistas, em graus diferentes, na economia, na sociedade e nos costumes.

Foi, portanto, 1/4 de século e de República governado por democratas-progressistas. Nesse período recuperamos a estabilidade da moeda, criamos Bolsa Escola, Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa Minha Vida, tivemos uma política externa independente e presente, mas não fizemos as transformações que o Brasil necessita e que a história esperava de nós.

A observação do Brasil que deixamos em 2018 demonstra que falhamos política e estruturalmente. Não demos coesão nem rumo ao Brasil. Basta olhar ao redor para ver que deixamos nosso país com 12 milhões de adultos analfabetos e 100 milhões sem saneamento, a população igualmente pobre e a renda igualmente concentrada; estamos nas últimas posições no Pisa e muito aquém do que deveríamos no IDH.

Deixamos a economia em recessão alarmante, e com desemprego em níveis dramáticos.

No nosso período, o país ficou mais radicalizado, violento e corrupto. Com menos coesão social e política e sem 1 rumo histórico. O Estado ficou mais ineficiente, aparelhado e endividado. Nós falhamos no propósito de mudar e dar uma nova direção para o futuro de nosso país e de nosso povo. Falhamos também politicamente ao levar os eleitores a escolher 1 governo diametralmente oposto ao que nós representávamos.

Falhamos e continuamos falhando ao não entendermos que falhamos, ao nos recusarmos a fazer uma autocrítica, condição preliminar para voltarmos a nos apresentar ao povo como uma alternativa progressista. Precisamos entender quais foram nossos erros.

O primeiro foi chegar ao poder como progressistas e nos acomodarmos como democratas conservadores. Ficamos 26 anos consolidando a democracia, sem reorientar o país nos novos tempos que vivemos. Não corrigimos as falhas do passado, nem apontamos ao novo progresso. Não entendemos que depois da “curva da história” nas últimas décadas, as ideias antigas já não servem.

A geopolítica e o comércio ficaram globais, a ciência e a tecnologia fizeram a robótica e a inteligência artificial, as mudanças climáticas definiram limites para o crescimento econômico, a democracia nacional deixou de dar resposta aos problemas que ficaram planetários, a pirâmide etária se inverteu, o Estado se esgotou moral, financeira e gerencialmente. Mas ignorando as mudanças na realidade, nós insistimos nas velhas ideias e nos velhos hábitos sobre como enfrentar o problema da pobreza, da desigualdade, do desenvolvimento.

Não entendemos que a justiça social exige economia eficiente. Que no tempo da economia do conhecimento, o aumento de produtividade, inovação e competitividade dependem da educação de qualidade para todos. Que deixar cada criança para trás é deixar o Brasil para trás. Continuamos tratando educação como um direito de cada brasileiro, e não como o vetor do progresso de todos.

Falhamos ao não entender que a bandeira progressista de hoje não está mais na ideia de a economia rica educar o povo, mas na educação de qualidade fazer a economia rica. Não vimos que as transformações sociais virão da equidade no acesso à educação de base.

Não percebemos que a “utopia” dos progressistas de hoje deve ser construir coesão nacional para executar uma estratégia que em algumas décadas o Brasil tenha uma educação com a qualidade das melhores do mundo e todas nossas escolas com a mesma qualidade, independente da renda e do endereço da família de seus alunos.

Falhamos por não termos a ousadia de propor o caminho para construir responsavelmente um país onde os filhos dos pobres estudem em escolas com a mesma qualidade dos filhos dos ricos. Preferimos vender a ilusão de que os filhos dos pobres ingressarão nas universidades mesmo sem acesso a uma boa educação de base.

Falhamos porque ficamos sem bandeira que nos diferenciasse. Não apenas perdemos uma eleição: fomos para casa sem deixar uma bandeira fincada. Por isso, deixamos o povo e a juventude sem esperança, apenas desencanto com o futuro e nostalgia de algumas narrativas.

Falhamos ao acreditar que eram verdadeiras as falsas narrativas que os marqueteiros inventaram para o que teriam sido realizações nossas. Falhamos ao cair na corrupção para pagar os marqueteiros, financiar campanhas e até enriquecimento pessoal.

Ao lado da falta de uma bandeira utópica, possível, responsável, a corrupção foi a maior de nossas falhas: privataria, mensalão, petrolão são vocábulos de nosso tempo no poder. Não apenas na corrupção do comportamento, também a corrupção nas prioridades dos estádios antes das escolas, das obras inacabadas; a corrupção das mordomias e privilégios que ampliamos em vez de eliminar.

Mas estas falhas talvez não tivessem acontecido se não fosse a trágica falha de termos cooptado os intelectuais e universitários em siglas partidárias. Nossos intelectuais silenciaram na crítica à corrupção, seja no comportamento dos nossos políticos corruptos, seja de nossas prioridades.

Prisioneiros de velhos esquemas teóricos, não foram capazes, nem tiveram interesse nem ousadia para radicalizar na formulação de um novo rumo para o Brasil. Pelo erro de cooptar os intelectuais, pagamos um alto preço de não contar com a crítica do presente, nem com novas ideias para o futuro. O que o stalinismo fez com o uso da força, nós fizemos pelo aparelhamento de nossa inteligência.

Esta foi uma das causas de termos ficado contra todas as reformas. Fomos eleitos para reformar o Brasil e ficamos contra as reformas. Não reformamos o Estado mordômico do Brasil: aumentamos o número de carros oficiais e de privilégios da cúpula no poder; não reformamos a política, ao contrário, nadamos nela como peixe na água, sem disfarçar a desfaçatez.

Na economia, demos o passo certo de adotar a responsabilidade fiscal, mesmo assim deixamos de respeitá-la com o uso de truques contábeis e “pedaladas”. Nenhuma reforma fizemos no sistema financeiro e bancário; não reformamos o injusto, complicado e vulnerável sistema fiscal; mantivemos a maior carga fiscal e os piores serviços públicos da história; não tocamos no complicado e comprável sistema de justiça.

Nós falhamos ao longo de 26 anos e continuamos falhando por não querermos entender que falhamos. A mesma arrogância que tivemos no poder, com narrativas falsas, mostramos agora ao ignorar o recado que o eleitor nos deu. Como se ele, o eleitor, tivesse falhado, não nós. Mas, nós falhamos.

Cristovam Buarque, 75 anos, foi governador do Distrito Federal de 1995 a 1998 e senador da República por 2 mandatos (2003-2011 e 2011-2019).